Era uma vez em um pequeno reinado muito longe daqui, um príncipe chamado Olavo, conhecido por sua grande habilidade artística. Era capaz de esculpir bustos de pessoas em tamanho real em poucos dias de trabalho com uma perfeição e riqueza de detalhes que impressionavam até mesmo os grandes mestres da época. Mas o que impressionava mesmo era a sua memória, ele era capaz de fazer suas obras tendo visto a pessoa apenas uma única vez.
Certo dia, caminhando em um bosque próximo de seu castelo à procura de inspiração para sua próxima obra ouviu um canto agradável e melodioso, um canto que encantava até mesmo os pássaros, que se esforçavam por acompanhar a melodia.
O jovem príncipe, curioso em saber quem cantava maravilhosa melodia, segue em direção à clareira de onde a música vinha e, ao chegar lá, avista uma jovem cantora e fica paralisado, tamanha cena de beleza.
Uma jovem, ricamente vestida em trajes brancos, cercada de pássaros coloridos cantava enquanto bordava, na companhia de outras mulheres, uma grande toalha; O sol da manhã debruçava-se sobre o grupo, oferecendo uma luminosidade especial à pequena clareira conforme se refletiam os raios nas roupas e joias da jovem. Foi amor à primeira vista, Olavo sentia que jamais conseguiria reproduzir tamanha beleza em suas esculturas, tal a perfeição. As aves multicoloridas voavam ao redor do grupo, pousavam na toalha e nas cabeças das mulheres, dando matizes especiais à cena.
Mas quando os pequenos pássaros perceberam a presença do estranho, tocam em debandada colorindo o céu e fazendo com que a jovem parasse sua canção, assustada com a repentina revoada.
Olavo se aproxima do grupo, apresenta-se e inicia uma conversa agradável, foi simpatia mútua. Letícia, encantada pelo jovem, apresenta-se como a filha mais nova do rei Gramfeld do reino vizinho e conta que estava ali, na companhia de suas aias tecendo a toalha que serviria para cobrir a mesa de jantar durante o casamento de seu irmão mais velho, que aconteceria em poucos dias.
As aias, quando perceberam o adiantado da hora e o encantamento da princesa pelo belo príncipe do reino vizinho acharam prudente o retorno ao castelo, encerrando aquela conversa, pois estavam receosas de que Gramfeld, o rei, soubesse do encontro. E elas estavam certas em seu temor, Gramfeld, como de costume, havia enviado um de seus melhores batedores pessoais para escoltar a filha e ele estava espreitando por entre as árvores sem que ninguém soubesse.
À tarde, o soldado, que não pudera ouvir a conversa acompanhada à distância na manhã daquele dia, contou ao rei Gramfeld que havia presenciado um encontro premeditado pelo jovem casal a fim de dar continuidade a um namoro proibido.
O rei, irado pelo atrevimento de Olavo em cortejar a filha mais nova, que, segundo as tradições, não poderia se casar pois deveria cuidar dos herdeiros do trono, declarou guerra ao reino vizinho. “Era preciso responder a afronta recebida”, dizia Gramfeld.
O bondoso rei Eustáquio, pai de Olavo, ao receber a notícia, passou a esforçar-se por resolver a contenda através da conversa e da diplomacia, mas Gramfeld estava irredutível. Semanas passaram-se entre trocas de presentes e pedidos de desculpas, mas a guerra era inevitável. A derrota era quase certa, uma vez que o reino de Gramfeld era muito maior e mais forte e já tinha o costume de resolver as contendas com reinos vizinhos à base de combates.
Olavo e seus guerreiros estavam decididos a combater até o fim, certos de que resolveriam a injustiça cometida por Gramfeld no campo de batalha. Não acreditavam em uma solução dialogada e viam na força a melhor forma de resolver o problema.
O irmão de Letícia, por sua vez, mostrava-se muito animado com a possibilidade de casar-se logo após uma triunfante batalha e incumbiu-se pessoalmente com os preparativos para a guerra, reunindo os melhores guerreiros.
No dia da batalha Letícia, dividida entre seu irmão, que chefiaria o exército de Gramfeld, e o jovem príncipe Olavo, que, cheio de bravura, lutaria pela injustiça sofrida, tranca-se na torre mais alta do castelo, de onde tenta, em vão, poupar seus ouvidos do som das tropas que marcham rumo ao bosque.
Olavo e seu exército são minoria, mas não se intimidam. Lutam como leões ferozes e mesmo mortalmente feridos continuam o combate. O som das espadas e os gritos de fúria dos guerreiros podiam ser ouvidos a léguas de distância. As aves fugiam em revoada, como que a repudiar tamanha brutalidade.
Pouco a pouco o som da batalha feroz é substituído pelo silêncio da expectativa. O sol já se ia pouco a pouco como que a ocultar nas sombras da noite o triste desfecho do combate quando Letícia, com seu coração estraçalhado, temendo pelo pior, avista um grupo de soldados que retornam ao castelo carregando o corpo de um homem mortalmente ferido. O desespero é absoluto quando reconhece seu irmão, carregado pelos soldados que tentam, em vão, salvar-lhe a vida.
Letícia corre para o bosque na tentativa de ter notícias de seu amado e acaba sendo atingida por um dardo envenenado disparado por uma armadilha montada pelo próprio Olavo minutos antes da batalha. Seu corpo cai sem vida a moucos metros de onde foi atingido, no centro do local onde a batalha havia sido travada há poucas horas atrás.
A noite cai e os reis, preocupados com seus filhos, saem pelo bosque em busca de notícias. Seus corações estavam turvados de temor, assim como a noite escondia o cenário de horror desenhado durante a batalha. Encontram-se, um de cada lado da clareira a contemplar a cena de destruição e morte e identificam no centro, iluminados pela tímida luz da lua os corpos de Letícia e Olavo, abraçados, triunfantes em meio ao cenário de derrota.
Eustáquio e Gramfeld se abraçam compartilhando a dor da desgraça que havia se abatido sobre seus reinos e, motivados pelo sofrimento, fazem as pazes.
Desde então os monarcas têm se empenhado em encontrar outras formas para resolver as contendas entre si, aboliram seus exércitos, proibiram o uso de armas em seus reinos e têm lutado para que os reinos vizinhos adotem as mesmas medidas.
A batalha ficou no passado distante e o bosque virou caminho obrigatório para os viajantes que juram que é possível ouvir durante o amanhecer um canto suave que comanda o despertar dos pássaros que habitam um grande carvalho, árvore imponente, quase uma obra de arte, situada no centro de uma clareira no bosque.
