Era uma vez na terra em que não havia mares, lagos ou lagoas, apenas rios, um jovem índio.
Aracuanã da tribo dos Ipiauí, filho de Jandira e Manassás jovens Ipiauís cuja beleza encanta só de ouvir falar, era índio distinto.
Inteligente como Jaguaruna, a onça preta.
Criativo como Yara a mãe das águas.
Certeiro como uma flecha em suas palavras.
Aracuanã desejava tornar-se pajé, um baquara como chamavam os Ipiauí. Substituir Paranauã, velho índio que andava adoentado e já procurava um sucessor.
Para tornar-se um baquara, dizia o velho índio na grande roda de que só os homens tomavam parte, é preciso fazer um grande feito. Yara, a mãe das águas, não se encanta pela inteligência, criatividade ou mesmo pela habilidade com as palavras, dizia olhando fixamente para Aracuanã, ela reserva o Bacopari de Baraúna (depósito d’água de madeira preta), dom da comunicação com os deuses, para aqueles que conseguem surpreendê-la…
Naquela noite Aracuanã não conseguiu dormir, precisava achar uma forma de surpreender Yara! e, em meio à sua inquietação, vê pousar na entrada da oca Aondê Baquara, a coruja da sabedoria, ave secular, conhecedora de todas as gerações dos índios Ipiauí, portadora de grande conhecimento e que espreitava as noites trazendo conselhos a todos que enfrentavam a escuridão da noite acordados.
Aracuanã explicou a Aondê Baquara que desejava surpreender Yara, mas não sabia o que fazer, uma vez que seus talentos não eram suficientes. Então Aondê Baquara conta a história do surgimento dos Ipiauí. Fala do namoro que Yara teve com um belo índio e como ficou triste com a perda de seu grande amor, obra de Aíba, a morte. A sábia coruja conta ainda sobre os sentimentos de tristeza da mãe das águas sempre que um Ipiauí, um de seus filhos, morre.
Aracuanã,
Inteligente como Jaguaruna, a onça preta.
Criativo como Yara a mãe das águas.
Certeiro como uma flecha em suas palavras.
Decide então dar um jeito para que ninguém mais morra ou fique doente, assim não haveria mais motivos para o choro e todos poderiam viver suas vidas com mais tranquilidade.
Vai até Aíba, a morte, e a convence de que aquele trabalho não era um trabalho digno para ela, tão poderosa e influente…
Coloca-se como escravo e Aíba, iludida pela astúcia de Aracuanã, passa o Quecé Panema, (faca velha de coisa ruim) ordenando que execute a morte de Paranauã em seu nome. Aracuanã, em um surpreendente gesto, mata Aíba e assume o seu lugar.
Daquele dia em diante não se ouviu mais falar de mortes, ninguém mais chorou e Aracuanã, respeitado por sua astúcia passou a ser conhecido por todas as criaturas da floresta como Aracuanã, aquele que venceu Aíba.
Por falta de lágrimas, já que ninguém mais chorava, os rios começaram a secar, os peixes a morrer, as florestas a perecer e toda a criação de Yara estava em perigo.
Percebendo o que havia feito, Aracuanã procura Aondê Baquara, a coruja sábia, para pedir ajuda. Queria reverter a situação, havia desistido de seus planos, mas Aíba estava morta e não poderia assumir sua posição.
Aondê Baquara diz a Aracuanã que deveria desistir de ser um baquara e assumir o trabalho de Aíba, já que detinha o Quecé Panema e ninguém mais queria ser o portador de tamanho trabalho.
Aracuanã, com grande dor no coração decide que daria continuidade ao trabalho de Aíba e vai para a tribo dos Ipiauí onde encontra Paranauã, encara-o seriamente, lágrimas lhe correm pelo canto dos enormes olhos e caem sobre seu Quecé Panema, que move-se de forma precisa e vigorosa ceifando a vida do velho baquara ipiauí com um único golpe.
O trabalho de Aracuanã era incansável. Recolhia a vida de todos aqueles que estavam muito velhos ou doentes, trazia lágrimas a todas as tribos da floresta e, pouco a pouco, os rios voltaram à vazão normal, os peixes voltaram a nadar livremente, as árvores recobraram o verde vivo, as aves voltaram a cantar. A vida voltou a fluir na grande floresta.
Yara, surpreendida com tamanho gesto de generosidade de Aracuanã, derrama tantas lágrimas de alegria ao ver sua criação restabelecida que inunda grandes áreas, criando lagoas, lagos e grandes mares, para onde os rios pequeninos passaram a fluir.
E é assim que até hoje os curumins ipiauí ficam sabendo como os rios, lagoas, lagos e mares são mantidos. As chuvas, dizem os baquaras, são as lágrimas de Yara, a mãe das águas, que vertem em grande volume sempre que um Ipiauí morre pelas mãos de Aracuanã.
