Um sonho no sertão

Era uma vez, há muitos anos, em uma terra seca, onde as plantas tinham dificuldade de nascer, os animais viviam sedentos e o sol brilhava todos os dias do ano no enorme céu azul sem nuvens um garoto chamado Chico.

Era um garoto do sertão, magro, de estatura pequena, pele queimada pelo sol forte, cabelos e olhos pretos, olhar triste e perdido.

Chico era filho único em sua família, vivia com seus pais e a Bilú, uma cadelinha valente que ajudava nas caçadas a calangos e roedores do sertão. Ele era o xodó da família, que se esforçava para que se animasse um pouco.

Estava sempre com o olhar perdido no horizonte, como se procurasse algo diferente naquela paisagem seca e marrom. Não gostava de brincar, não tinha ânimo para ajudar nas caçadas e nem nos afazeres da casa. Falava pouco e não dava trabalho nenhum.

Certo dia o pequeno Chico ficou muito doente, febre alta, dor de cabeça, muito cansaço e nada que dona Jurema fizesse parecia resolver. Seu Jeremias, com o coração apertado, temendo o pior decide levá-lo até o povoado próximo, quem sabe a dona Joana, rezadeira experiente da região não pudesse curar a espinhela caída e salvar-lhe o xodó?

A longa caminhada debaixo do sol forte parecia piorar-lhe a situação, Jeremias já via a hora em que passaria Chico para os braços de Maria. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto mal tratado pelo sol forte quando avistou ao longe uma casa cercada de plantas verdes e cabritos a brincar felizes e saudáveis. Tratou de apertar o passo e ao chegar foi recebido por um velho que se deslocava com muita dificuldade e que veio ao encontro do trio de viajantes.

Era um homem alto, muito magro que andava curvado com a ajuda de um pedaço de pau. Era careca, de olhos quase escondidos pela pele amarrotada do rosto. Suas mãos deixavam quase aparentes os ossos dos dedos, tinha as unhas cheias de terra e a roupa encardida.

Ao avistar o homem, acompanhado de uma cadela que parecia estimular-lhe os ânimos para a caminhada difícil com uma criança nos braços, tratou de ir em direção a eles. Muito solícito e demonstrando grande vigor naquele momento, ajudou a levar a criança para o interior da casa, escura, desprovida de móveis, cheia de mudas de plantas e com um colchão de palha em um canto.

O velho, muito animado com a possibilidade de ajudar tratou de fazer tudo que estava ao alcance para deixar seus hóspedes tão confortáveis quanto possível.

Depois de alguns dias de compressas de ervas, chás e garrafadas, Chico parecia dar sinais de que conseguiria superar aquele momento difícil, mas seria uma lenta recuperação.

Seu João, preocupado com a esposa e com as responsabilidades do dia-a-dia, já com o coração menos apertado por ter sido atendido por Maria em suas preces, acabou deixando Chico sob os cuidados do dono da casa e recomendando que retornasse sozinho quando estivesse em condições, voltou com Bilú para a lide diária de sobrevivência na aridez da vida.

O tempo passou e muitas noites após a saída de Chico, Bilú registra o seu retorno fazendo um verdadeiro estardalhaço à luz da lua, que trazia sob seus raios um menino diferente.

Chico parecia outro menino, corado, animado, com um sorriso no rosto, olhos brilhantes; muito falante, como que encantado por um tesouro há muito procurado e finalmente descoberto! Trazia consigo um saco de juta cheio de sonhos, plantas, sementes e esterco de cabra.

Chico passou a se dedicar à criação de um jardim florido em sua casa, sempre incansável, passou a trabalhar duro ajudando a família durante o dia e em seu jardim à noite. Não se deixava abater pela opinião dos vizinhos e amigos que diziam com absoluta convicção que não era possível cultivar flores naquela região seca e esquecida por Deus.

O tempo passou, o menino Chico cresceu e ficou conhecido como Chico Sonho. De tanto esforço para conseguir flores em seu jardim de plantas, Chico conseguiu fazer algumas plantas crescerem, modificou a terra em torno da casa, atraiu pequenos animais das redondezas, possibilitou a moradia de muitas aves e insetos.

Conseguiu chamar a atenção de vários vizinhos das redondezas, que passaram a procurar a casa da família para pegar ervas e água no pequeno lago que parecia sempre disponível, a pesar da seca tão comum na região.

As crianças logo descobriram um lugar maravilhoso para brincar. Chegavam a passar o dia inteiro naquele enorme jardim cultivado a custa de muito esforço por um homem que perseguia o sonho de ter um jardim cheio de flores.

Chico era movido a sonho, incansável na manutenção de seu jardim estava sempre inventando algo novo e encantando as crianças que estavam por lá. Plantas novas, ferramentas inovadoras, mudas cultivadas em garrafas de plástico, latas de leite e troncos secos de árvores típicas da região! Tudo era motivo de atenção para aquele povo.

Com o tempo as crianças começaram a se interessar pelas plantas, atenção principal de Chico Sonho, e começaram a ajudá-lo na manutenção. Traziam sempre novas mudas, sementes desconhecidas, esterco, pedaços de pau e tudo mais que pudesse ajudar na construção do jardim florido, que foi crescendo, tornando-se uma enorme área verde habitada por plantas e animais nativos da região.

O velho Chico, como ficou conhecido depois de muitos anos pelos vizinhos, filhos e netos dos vizinhos de seu pai, estava sempre apresentando vigor inacreditável. Sempre disposto, conversava com as crianças e adultos que o procuravam; não media esforços para receber a todos; compartilhava as preciosas lições aprendidas ao longo de anos de prática da jardinagem em busca de um jardim florido.

Alguns comentavam: “Pobre homem, dedicou a vida à concretização de um sonho impossível. Nunca conseguiu ver uma flor nascer neste jardim e durar muito tempo”, mas o Velho Chico nunca desanimou. Parecia sempre feliz com os resultados obtidos.

Muitas décadas depois da doença que quase o arrebatou para os braços de Maria, o Velho Chico encontrava-se cabisbaixo sentindo o peso da idade que se fazia presente e, talvez pela primeira vez em anos, via seu sonho realmente ameaçado.

Ainda era madrugada, o sol não havia dado o ar da graça. O céu, alumiado pelas estrelas amigas constantes nas madrugadas de trabalho, estimulava as lembranças de todo o esforço, de todas as experiências até ali vividas, das pessoas que conhecera, das crianças que socorrera, das vidas que salvara e lamentava porque até então, só não havia sido capaz de fazer brotar flores em seu jardim; quando avista ao longe, vindo de vários lugares pequenos lumes a denunciar a presença das crianças que chegavam cedo das redondezas para ajudar na manutenção do jardim, ocultas pela escuridão da noite, denunciadas pelo barulho do mato, dos animais que lhes registravam a presença e das pequenas lamparinas de querosene que carregavam.

Iam assumindo, pouco a pouco, suas tarefas. Uns colhiam água no pequeno lago, outros recolhiam ervas daninhas, outros abriam buracos que eram logo preenchidos por pequenos blocos de terra com mudas ainda pequeninas de plantas. O esterco, trazido das mais longínquas vizinhanças era cuidadosamente colocado no pé das plantas.

Após alguns minutos de observação silenciosa à luz das estrelas o velho Chico começava a perceber os primeiros raios de sol, que traziam consigo a luz necessária à conclusão do trabalho e ao florescimento da vida em seu belo jardim. Percebeu então que já havia alguns anos que seu jardim havia se transformara em um belo jardim florido. Pequenos botões de rosas e de cravos, passos firmes, mãos ocupadas, olhinhos brilhantes, certos do que faziam. Seu jardim estava florescendo e ele nem havia notado.

Com seus olhos molhados, coração aos saltos como nas paradas de 7 de setembro que ouvia no rádio elevou os pensamentos a Maria, sua protetora. Agradeceu aos animais que trouxeram o esterco e as sementes de longe, à chuva rara que o forçou a construir o lago e que convidou as plantas a criarem raízes profundas, aos adultos que duvidaram dele, convidando-o ao trabalho solitário e a novas descobertas. Agradeceu ao sol, que o forçou ao trabalho árduo noturno e ao convívio com as estrelas e com sua amiga lua. Agradeceu a possibilidade de convívio com as crianças, as flores de seu jardim, que pouco a pouco brotaram de todos os cantos trazendo esperanças para aquele sertão tão castigado.

O velho Chico, segundo a lenda, partiu naquele amanhecer para seu encontro definitivo com Maria, trazia um grande sorriso no rosto e um olhar sereno. Foi plantado em seu jardim, de onde brotaram veios de água, recursos tão raros e que até hoje alimentam os rios na região. Os vizinhos, encantados pela obra de uma vida, encamparam a ideia e até hoje se dedicam a reproduzi-la; cada um do seu jeito, semeando e colhendo pequenos botões de rosas e cravos em uma região antes tão seca e sem vida.

Até hoje os descrentes duvidam que a região, rica e densamente povoada por plantas, animais e flores, transbordante de vida e exuberância tenha sido um dia um pedaço de sertão e dizem que esta lenda não passa de mais uma das estórias que se conta às margens do Velho Chico, que passa, trazendo esperanças, plantando jardins, promovendo a vida e reunindo crianças às suas margens para momentos de brincadeira inocente.

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