Um dia me senti viva. Nascida da generosidade da bela flor de uma mangueira, motivada pela curiosidade de algumas pequeninas abelhas, pelo vento e pela insistência de alguns beija-flores pequeninos, coloridos, muito rápidos e precisos em seus movimentos.
Cresci alimentada pela deliciosa seiva elaborada a partir das profundezas da terra, da água refrescante de um riacho e da luz vivificante do sol. Sorvia o precioso néctar da vida que vertia abundantemente em mim através de um pequenino pedúnculo e me fiz grande e colorida.
O calor do sol, os banhos de chuva, as cócegas provocadas pelo vento, o canto dos passarinhos, as brincadeiras dos animados micos e os estímulos de vários outros amigos que fiz ao longo de minha vida tornaram-me doce como o mel e grande como só as boas mangas sabem ser.
Me Gabava da posição privilegiada no alto da mangueira, de onde podia ver os enormes campos verdes, as tempestades de raios, as boiadas passando, as crianças brincando, os casais namorando, as onças caçando, o por do sol e o nascer da lua, que se alternavam todos os dias em um balé sincronizado que provocava o surgimento dos dias e noites.
Me sentia senhora da vida, a melhor das mangas da mangueira e nem percebi que, pouco a pouco meu peso, minhas brincadeiras com o vento, o peso da água das chuvas e a movimentação frenética dos galhos provocada pelos micos promoviam o afrouxamento de minha ligação com pedúnculo que me alimentava.
Certo dia, sentindo-me atingida pela fatalidade, levada ao chão, suja de terra e esquecida por meus amigos, senti-me triste e faminta. Os dias e noites já não pareciam tão alegres, sentia falta da vista privilegiada e invejava as outras mangas, que pareciam tão pequeninas de onde estava. Aos poucos pequenas larvas, formigas e passarinhos descobriram-me e começaram a se alimentar de minhas doces e machucadas entranhas. Era o fim de minha vida e me sentia triste com isso.
A vida não parou. As chuvas continuaram, o sol brilhava todos os dias, os animais buscavam alimentos e outras mangas caíram também, envolvidas pela mesma fatalidade que havia me ceifado a boa vida.
Sentia-me privada da liberdade, saudosa dos amigos do alto, curiosa a cerca do que acontecia nos verdes campos e decidi que minha vida não acabaria assim. Descobri em minhas entranhas forças que desconhecia.
Lancei raízes profundas para evitar ser tirada de minha terra e descobri substâncias salinas, ácidas e nem um pouco saborosas. Sorvia a água que chegava a mim vinda das chuvas e do riacho para aliviar a cede constante e o cansaço provocado pelo trabalho constante de crescer.
O sol me convidava diariamente a lutar pela vida e me ajudou muitas vezes a elaborar precioso alimento a partir de sua luz, dos sais ácidos e da refrescante água. Crescia a olhos vistos! Um ensaio de caule, sustentado pelas raízes profundas, verdinho como a grama tornou-se lar de algumas folhas que aprendi a estimular com meu precioso néctar e, em troca, a receber a ajuda para produzir ainda mais seiva, que servia de combustível para continuar o esforço de crescer para rever os verdes campos do alto.
Aos poucos a luta tornava-se mais suave. Os esforços de resistência ao vento, à chuva e ao calor escaldante já não eram tão intensos. Comecei a dedicar minha atenção a outras descobertas e aprendi que também, como aquela enorme e inerte mangueira que havia me abrigado no passado, poderia ser o lar de animais, plantas e insetos. Lancei galhos para o alto, abriguei mais folhas, tornei-me lar para ninhos de aves, os micos vieram brincar nos meus galhos e, conforme a vida fluía através de mim, aprimorei minha amizade com a chuva, com a lua e com o sol. Desenvolvi novas formas de interagir.
Lembro-me até hoje de uma bela tarde de final de inverno em que consegui descobrir como lançar flores em meus galhos. Que felicidade! Iniciaria a primavera de forma tão plena quanto a velha mangueira que havia me servido de lar. Na realidade, percebi que não era uma manga e que não havia nascido de uma bela flor.
Aprendi naquela primeira tarde de uma das muitas primaveras que já vivera que era a manifestação de algo muito maior que eu e que preenchia de beleza e vida a tudo e a todos.
Entendi que fui flor para aprender a encantar os casais, insetos e passarinhos!
Virei manga para adoçar o paladar dos micos, crianças e todos mais que se encantassem com minhas cores e perfume!
Virei árvore para abrigar a vida abundante à minha volta!
E agora, que sinto o peso das décadas, momento em que o vento me abala intensamente, o calor do sol me enfraquece, a chuva me afoga e sinto a vida transformar-me novamente, anseio por descobrir o que a vida me reserva.
Que lições de plenitude e integração com a natureza se farão presentes? Que formas de interagir com meus velhos amigos serão possíveis? Como encantarei e serei encantada?
Aguardo a nova fatalidade. Momento em que meu tronco tombará e novo ciclo de vida iniciará dando continuidade à vida que flui através de tudo e de todos.
