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Do outro lado no morro do Corcovado a manhã já havia surgido trazendo a claridade de um novo dia e a esperança de que tudo fosse apenas mais um pesadelo.

A chuva forte, os relâmpagos cortando o céu, os trovões ecoando na pedreira próxima, a falta de luz, a impressão de conforto e segurança nos braços de sua mãe, a voz firme e enérgica de Jonas, o pai, que comandara fossem todos deitar; todas as imagens e impressões da última noite retornavam de forma embaralhada à mente de João, que se mantinha sentado, enrolado em um cobertor trazido por dona Maria de Lourdes, a vizinha.

João havia sido colocado em uma cadeira de madeira na cor de marfim com espaldar alto e forro de veludo azul bastante desgastado e lá se mantinha quase imóvel, alheio a toda a movimentação à sua volta e do lado de fora da casa.

Dona Lourdes se lamentava com José Carlos, um bombeiro que acabara de chegar para trabalhar na tentativa de salvamento das vítimas do desabamento da madrugada. Estavam todos muito tristes e perplexos com a força da chuva que lavara o morro na madrugada anterior levando 12 barracos que ficavam próximos a uma encosta desprotegida.

“Não houve tempo para tirar ninguém”, dizia a mulher alta de pele clara e cabelos desarrumados enquanto enxugava as lágrimas que lhe desciam o rosto sem parar e olhava para dentro da casa onde era possível ver um menino de 9 anos em estado de choque olhando fixamente para o nada, ainda sujo de lama e enrolado em um belo e aconchegante cobertor de lã ricamente estampado com a pintura de um verdejante campo de flores.

“Conseguimos tirar o João assim que o barraco caiu. Ele estava preso em um monte de lama alguns metros ali para baixo”, apontava Dona Lourdes para José Carlos com a esperança de que ainda fosse possível resgatar mais pessoas com vida.

Vizinhos e bombeiros trabalhavam com muita vontade, enfiados na lama mole até os joelhos, roupas totalmente marrons e encharcadas, rostos vincados pela força que faziam para remover o entulho. Expressões marcantes, gritos e expectativa a cada passo dado, a cada pista encontrada ou som diferente que conseguiam perceber.

Por vezes instantes de silêncio eram impostos para tentar ouvir o que parecia pouco provável. A expectativa era terrível; desejava-se ouvir qualquer som que sugerisse a existência de alguém vivo embaixo de tanta lama, mas o bom ouvinte apenas percebia o som da água que escorria pelo solo encharcado, a respiração ofegante dos homens e mulheres que trabalhavam e o choro abafado dos que estavam à volta.

Muita lama, galhos e pedras desceram da encosta fazendo peso nas paredes de 30 barracos abalando-lhes as estruturas. 12 casebres não aguentaram a pressão e acabaram cedendo. Talvez mais alguns viessem a cair ainda naquele dia se a chuva não desse uma trégua. Estimava-se que cerca de 50 pessoas estavam envolvidas naquela tragédia, mas ninguém sabia dizer ao certo.

As pessoas trabalhavam como podiam para revirar os escombros e localizar sobreviventes. Alguns oravam enquanto choravam no entorno daquela enorme ferida aberta no meio da comunidade; ainda sem acreditar que tantas famílias pudessem ser colhidas de surpresa de uma só vez em um lugar em que tantos trabalhavam honestamente para sobreviver à vida.

Matilde, jovem recém casada que acabara de mudar para o local com Tobias chorava descontroladamente e não conseguia dizer uma só palavra. Acabara de tornar-se viúva e sentia-se culpada por não conseguir força suficiente para manter-se firme e livrar seu amado das forças da mãe natureza.

Tobias estava acordado no momento da tragédia e percebeu que a encosta não iria aguentar. Teve tempo de salvar sua esposa e dona Idalina, a sogra a quem tratava como se fosse a própria mãe.

Dona Idalina, mulher de fibra, um metro e cinqüenta de pura sabedoria construída ao longo de 95 anos bem vividos no sertão, pele curtida pelo sol, sotaque carregado e sorriso frequente que denunciava a sabedoria da vida e cativava a todos; estava sentada na varanda de uma casa próxima observando tudo silenciosamente. Sempre tinha uma história a ser contada, uma simpatia a ser ensinada e um pitu a ser dado nos moleques que pareciam não ter recebido educação. Mas agora parecia silenciada diante dos acontecimentos. Sempre dizia o que pensava, era sincera e direta, mas neste momento não tinha nada a ser dito. Nada a ser feito…

A veneranda senhora estava sentada em um latão de manteiga vazio trajando um vestido simples de chita que Estava ensopado e mantinha o olhar atento a tudo o que acontecia. Vez por outra alguém lhe dirigia a palavra perguntando se precisava de algo e ela apenas meneava a cabeça em negativa, mantendo-se silenciosa naquele momento grave para a comunidade do morro dos Macacos na Tijuca. Acompanhava tudo com o olhar e foi a primeira a registrar a chegada de um grupo de cerca de 30 pessoas que vinha trazer apoio e consolo naquele momento.

O pastor Elias, homem franzino, pele morena, olhar penetrante e sorriso confiante; liderava o grupo de homens e mulheres que traziam água, medicamentos, alguns mantimentos, ferramentas e muita vontade de servir. Acabara de chegar ao local e foi logo buscando integrar-se à organização causando o mínimo de confusão possível. Desejavam ajudar no que fosse necessário.

Aos poucos os homens integram a força de busca e socorro e as mulheres acercaram-se dos que precisavam de consolo para suportar aquele momento sufocante que não era compreendido.

Dona Idalina levantou-se e foi diretamente ao pastor que dava as últimas instruções a seu grupo e começava a aliviar-se das roupas para iniciar o trabalho duro de remoção de escombros e procura de sobreviventes.

Ao perceber a veneranda senhora católica com quem havia conversado algumas vezes em visitas às famílias do local e por quem aprendeu a nutrir profundo respeito em função de suas posições morais firmes e inabaláveis; abre os braços e lhe dá um forte abraço dizendo palavras de consolo e acolhimento em função da morte de Tobias, a primeira morte confirmada na tragédia.

Para surpresa de todos os que estavam próximos, dona Idalina recebe o forte abraço com um grande sorriso e lhe diz que aquele momento não era o de lamentar as perdas, mas de cultivar a esperança, a vontade de seguir em frente e a certeza de que nada acontece por acaso.

“Temos muito a ser feito Elias” disse dona Idalina de forma firme, quase com voz de comando. “Deixe que os demais cuidem dos escombros, há muitas almas sofridas que precisam de suas palavras de esperança.”

Em poucos minutos a casa de dona Maria de Lourdes estava cheia de mulheres, crianças, idosos e homens feridos que não tinham condições para o trabalho duro. Eram oito horas da manhã quando dona Idalina terminou de rezar o Pão Nosso e sentou-se ao lado de João para ouvir a fala de Elias, que iniciava o primeiro culto evangélico do dia na comunidade.

João, sentindo-se acolhido por aquela senhora a quem tanto provocou contrariedades nas últimas semanas, vertia lágrimas sem parar e finalmente saia do estado de choque, despertando para a vida que recomeçava naquele momento precioso.

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