A folha que queria mudar o mundo

Eu vou contar para vocês uma história que eu ouvi de um macaco, num parque aqui bem próximo. Ela foi contada a ele por uma arara azul que ouviu dizer, por intermédio de um tucano lá no Pantanal, que os índios de uma tribo na Amazônia estavam lutando para salvar as árvores da floresta. Mas o interessante mesmo é que tudo começou através de uma folha azul que decidiu mudar o mundo…

Era uma vez, na floresta amazônica, uma pequena folha nascida nos galhos mais altos de um grande jatobá de 400 anos e que, como todas as outras folhas, desde pequena fora ensinada a filtrar os raios de sol para produzir alimento.

Mas a pequenina folha era diferente de suas irmãs, nunca estava satisfeita em observar as aves multicoloridas que habitavam os galhos próximos aos dela ou os macacos, que faziam piruetas no ar, saltando de galho em galho a procura de frutos frescos e diversão. Ela queria mais da vida, queria sair daquela monotonia, conhecer outras árvores, outros animais e vivia com o pensamento no mundo da lua.

Certo dia, durante uma bela manhã de sol em que se encontrava ao sabor do vento que tocava a copa do grande Jatobá, a pequena folha teve sua atenção atraída para um barulho estranho, um rosnado que nunca havia ouvido antes; som grave e estridente que vinha do chão e fazia os pássaros fugirem amedrontados. O som ficava cada vez mais forte, e como o rosnado feroz, sua curiosidade aumentava. De repente parecia que o mundo estava de cabeça para baixo, o chão estremecia, os macacos gritavam, as aves revoavam, as folhas caíam …

O que estava acontecendo? Será que estava em perigo? Que animal seria aquele que fazia a floresta estremecer com sua aproximação? Será que tinha asas? Será que se alimentava de folhas? O que será que queria ao pé de sua casa, lar de tantas aves, playground de tantos macacos, amortecedor para a chuva que caía abundantemente na região?

O rosnado continuava e o grande jatobá, embora tremendo de medo, resistia bravamente ao ataque da fera. Foi nesse momento que a indefesa folha conseguiu ter uma visão do temido animal.

Nunca havia sido visto por ali antes. Era alto e magro. Sua pele vermelha destacava-se na vegetação, sua cabeça era amarela e seus olhos grandes e vazios. Ficava em pé sobre duas patas e possuía apenas uma grande garra dentada com a qual estava colocando seu lar no chão. Sua voracidade era tão grande que saia fumaça de suas ventas. O ataque era impiedoso e era certo que o jatobá não resistiria por muito tempo.

Soltando suas folhas ao vento e derrubando os ninhos dos passarinhos, o jatobá começou a se entregar. Já sem forças começou a tombar com grande velocidade em direção ao solo. A pequena folha, indefesa e estática, a tudo assistia sem nada poder fazer. Será que viraria comida para bicho papão? Tão atônita estava com o acontecido que nem percebeu que durante a queda havia se desprendido do galho onde estava sendo carregada pelo vento.

Começou uma longa viagem, ganhando cada vez mais altura e, de tão excitada por estar como havia pedido a Deus, logo se esqueceu da desgraça que havia acabado de presenciar. Ao sabor do vento, foi carregada, quilômetros a fora, sobrevoando a mata atlântica e gritando a todos a sua felicidade. Até que o vento foi diminuindo, diminuindo, diminuindo e parou. Sua jornada estava chegando ao fim. O que será que a esperava ao pousar em solo firme?

Aguçou sua vista e pode ver que se dirigia para pequena tribo indígena. Avistava algumas índias trabalhando, umas crianças brincando no centro da tribo e quando pensou que ia cair bem no meio delas, uma lufada de vendo mais forte a arrastou para dentro de uma oca, onde um velho índio estava sentado. Acabou pousando bem na cabeça do velho.

Tratava-se de Acauã, o pajé da tribo, que cantarolava uma canção indígena e preparava uma espécie de poção em uma pequena fogueira. Pegou aquela caiubi azul, olhou-a com atenção e decidiu usá-la em sua poção. Quando foi posta dentro de uma cuia de barro, junto com água, alguns besouros e outras folhas, a caiubi sentiu-se estranha. Sua memória foi se apagando pouco a pouco, à medida que deixava sua cor na água morna.

Acauã, após ter bebido a poção, parecia ter entrado num estado de transe. Sua respiração era ofegante, estava catatônico, não se movia, babava e tinha o olhar fixo no nada, como se estivesse vendo alguma coisa que ninguém mais poderia.

Ficou assim por alguns minutos, até que começou a suar frio. Aos poucos, sua respiração foi voltando ao normal e acabou caindo para o lado, sonolento, como se tivesse feito um grande esforço.

Só despertou com a algazarra feita pelas crianças da tribo, que festejavam o regresso bem sucedido dos homens que haviam saído para uma caçada e traziam um grande javali, morto a flechadas com suas butúies. Imediatamente convocados pelo velho pajé, todos os homens seguiram para uma roda na grande oca.

A reunião durou a noite inteira, e ao amanhecer, todos que saiam da oca estavam com olhares atormentados, como se houvessem recebido uma notícia terrível. Era a notícia trazida por aquela caiubi a respeito do monstro que estava atacando a floresta.

Acauã conduziu, então, uma dança cerimonial agradecendo a Araci por ter enviado notícias através da caiubi e todos pediram a Ceci que abençoasse os guerreiros daquela tribo que levariam seus itagis e butúies para combater o monstro da floresta.

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