Aquela parecia ser mais uma manhã chuvosa de março em Copacabana. A água havia caído de forma incansável durante toda a madrugada castigando toda a Zona Sul, carregando lixo para os bueiros e criando verdadeiros rios caudalosos em vários pontos do Jardim Botânico, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon e Lagoa Rodrigo de Freitas.
Dona Sueli estava acordada desde cedo e já havia falado com vários de seus amigos com quem compartilhou a aventura de voltar para casa durante a tempestade da noite anterior. Graças a Deus todos estavam bem e agora começava a procurar notícias de seus alunos e companheiros de trabalho na Casa do Ser, obra social na Rocinha que oferecia diversas atividades de apoio a crianças e jovens na área de educação.
O sol, mediador da trégua no conflito entre a terra e o céu, não foi capaz de romper completamente as nuvens carregadas e apresentava uma manhã escura e triste, trazendo o presságio de que algo muito sério havia acontecido no Rio de Janeiro.
A televisão anunciava em todos os noticiários o estado de calamidade em que a cidade se encontrava. A chuva havia castigado grande parte da cidade, principalmente a zona Sul e Norte, trazendo muitas dificuldades para aquela terça-feira. O prefeito solicitava que todos permanecessem em suas residências para evitar situações de risco desnecessário, uma vez que ainda chovia forte em vários bairros, muitas vias principais estavam alagadas e havia vários bairros sem fornecimento de luz.
Dona Sueli, senhora alta de pele muito alva, cabelos totalmente grisalhos e belos olhos verdes que denunciavam sua descendência austríaca, tinha os olhos cheios de lágrimas enquanto pressentia o que ainda não estava vendo na televisão. No auge de seus 70 anos de idade, mais uma vez sentia-se convidada pela vida a exercitar a fé, a solidariedade, a fraternidade e a descobrir os limites de suas próprias energias.
Percebia a gravidade da situação para seus queridos alunos e decidiu não esperar mais notícias. Havia chegado sem grandes dificuldades em casa na noite anterior, a pesar da catástrofe que se iniciava, conseguira ter uma boa noite de descanso e sentia-se muito forte e capaz de dar uma volta ao mundo. Tinha certeza que não fora por acaso.
Ligou para seu neto Mateus e convocou seus braços fortes. “Há muito trabalho a ser feito”, disse-lhe marcando como ponto de encontro a sede da Casa do Ser em Ipanema e instruindo-lhe a ligar para os companheiros de juventude para mobilizarem parentes e amigos. Quem não pudesse subir a Rocinha deveria se empenhar ao máximo para conseguir recursos como roupas, fraldas, mamadeiras, leite e água. Não deveriam se esquecer também das preces, muito importantes naquele momento de superação pessoal e coletiva.
Mais alguns telefonemas e vários companheiros de trabalho na Casa do Ser já estavam alertados sobre a necessidade de iniciar uma corrente de preces em favor de todos que se encontravam na situação de aprendizado intenso sobre a vida.
Dona Marlene, companheira que havia ajudado a fundar a Casa do Ser havia combinado que reuniria alguns médiuns do centro para realizar uma reunião especial para atender aos espíritos sofredores ligados à catástrofe em curso e para buscar alguma orientação do plano espiritual superior, que provavelmente se manifestaria trazendo palavras de apoio para todos os envolvidos, como já era de costume em momentos semelhantes que haviam acontecido do passado.
Eram oito horas da manhã quando dona Sueli deixava a segurança de seu lar portando uma mochila com material para primeiros socorros, seu evangelho e algumas garrafas de água mineral.
