Meu filho, conte-me como é que tudo isso começou. Gostaria muito de poder compreender melhor sua história. Quem sabe não temos algo em comum que justifique o fato de estarmos presos aqui nesta humilde cabana esperando a tempestade passar?
Perguntava a generosa matrona enquanto aplicava um unguento perfumado em minhas feridas trazendo algum alívio e conforto que eram capazes de calar-me fundo e de encher meus olhos de lágrimas diante de tamanha dedicação e abnegação para com o estranho corpulento, mal educado e fedorento em que havia me tornado após anos de reinado na cidadela dos esquecidos.
Normalmente julgaria uma petulância este tipo de pedido, ainda mais vindos de figura tão frágil e delicada, mas, de alguma forma, o ambiente calmo e silencioso, o perfume do incenso que queimava, o conforto das peles que cobriam o local onde estava deitado e a atenção com que era tratado amenizaram meu modo de ser e fizeram surgir em minha mente memórias há muito perdidas nas areias do tempo. Memórias de uma amada parceira de vida com quem tive a oportunidade de estabelecer consórcio e trazer ao mundo duas lindas gêmeas, Sol e Lua, as razões de minha existência naquela época.
– Era uma vida difícil – contei-lhe – A vida nos campos nórdicos era muito dura e exigia que trabalhássemos dobrado nos períodos mais quentes do ano a fim estabelecermos provisões suficientes para sobreviver aos rigorosos invernos.
Aquele verão estava sendo particularmente cansativo. Léa havia acabado de dar à luz a nosso terceiro filho, que nascera morto, e não tinha condições de realizar qualquer tipo de esforço físico.
-Eu trabalhava por nós dois, dormia pouco, me alimentava mal e dava conta de todas as responsabilidades do verão sob a companhia de Zed, meu fiel cão de caça. Auria forças da tristeza que enevoava meu coração.
A perda de Artur, meu tão sonhado filho homem havia sido um grande golpe para mim, ainda mais quando Zenira, a curandeira local informou-nos que Léa não poderia mais ter filhos. A dor de ter que enterrar meu próprio filho, a última esperança de perpetuar meu próprio sangue entristecia-me profundamente e impelia-me a trabalhar intensamente para dar algum significado ao último homem de uma enorme linhagem de valorosos guerreiros.
A primavera havia deixado suas trilhas pelos enormes e verdejantes campos. O verão havia se firmado há algumas semanas trazendo o tempo estável necessário às caçadas. Os animais faziam-se presentes em abundância e os nobres caçadores começavam a surgir em pequenos grupos à busca de farta diversão.
Acompanhados de seus cães, cavalos e servos, nobres do sul chegavam às redondezas em busca de troféus para significar suas vidas vazias, embora duvidasse que qualquer um deles fosse capaz de sobreviver a uma vida verdadeiramente rude e cheia de demandas como a de meu povo e, desta forma, ter um significado para a vida.
Certa noite, quando estava do lado de fora de minha casa finalizando algumas tarefas antes de me recolher, Zed deu sinal da presença de algo fora do normal em nossas vidas rotineiras. Olhando para o alto da colina, ricamente iluminada pela luz do luar, era possível ver um cavalo solitário com o que parecia ser uma pessoa tombada sobre ele.
Fui ao socorro do forasteiro perdido, que viraria presa fácil para os lobos que caçavam à noite naquelas redondezas. Talvez seu acampamento não estivesse longe dali, mas encontrava-se gravemente ferido por uma flecha e não sobreviveria se não fosse possível repousar naquele momento. Tratei de recolhê-lo e durante toda a noite Léa e eu tratamos do jovem ferido.
Sua feição jovial denotava alguém bem tratado. Cabelos escovados, pele macia, ricas roupas de seda e algodão bordadas à mão e sua inacreditável intolerância à dor cativaram as pequenas Lua e Sol. Também me afeiçoei ao rapaz, talvez pela chance de fazer por um jovem aquilo que não pude fazer por Artur. Léa estava desconfortável com a presença do jovem em nossa casa, mas acatou minhas orientações e tratou do jovem como pode.
Nos dias que se seguiram busquei localizar sem sucesso o acampamento de caçadores de onde Arturo havia saído. A cada dia que voltava para casa encontrava-o mais forte e recuperado. Até o dia que o encontrei deitando com minha amada esposa.
O sangue ferveu-me de tal forma que perdi a razão.
Hoje entendo que começava ali o início de meu império.
Tomado pelo ódio, saquei de uma enorme faca e golpeei o jovem corpo nu onde me foi possível. Um grande corte abriu-se em suas costas e o sangue começou a jorrar aos borbotões. Lua e Sol choravam cada vez mais alto e pude perceber o olhar de desespero de Léa. Senti uma forte e profunda estocada nas costas que me tirou o ar.
Em poucos segundos agonizava sob uma poça de sangue no chão e tinha à volta outros homens ricamente vestidos como Arturo que riam do acontecido.
Queria levantar-me e fazer calar aqueles jovens insolentes que estavam à minha volta, mas faltavam-me forças. Minha ira era tão grande que urrava impropérios amaldiçoando aquelas criaturas abjetas do sul. Jurei que não morreria enquanto não os fizesse pagar pelo crime cometido contra minha família.
A dor tornou-se cada vez mais intensa. Uma estranha sensação de frio apossou-se de meu corpo e aos poucos perdi a consciência…
A tempestade do lado de fora da cabana havia se tornado mais forte, os raios estavam mais frequentes e agora era possível ouvir o vento que rugia como quem declara o desejo de deixar-nos sem abrigo.
– Agora é preciso descansar meu jovem. – Disse a generosa senhora com ar maternal – Velhas feridas podem se abrir se não tratadas de forma adequada. Vamos deixar nossa conversa para um momento em que você esteja mais forte.
De alguma forma percebi que minha benfeitora tinha razão. Havia voltado a sentir uma leve pontada em meu pulmão direito, dor que não sentia há décadas. Tentei conciliar o sono, mas a noite foi muito difícil.
Povoada pelas lembranças de meu império, de seus becos e ruelas, de sua população, de meu enorme castelo e pelos fantasmas do passado, meus sonhos trabalhavam intensamente para recordar-me dos momentos seguintes ao último encontro com Arturo.
Lembro-me ter acordado sentindo muito frio. Estava deitado sobre um piso de mármore branco e à minha frente havia uma coluna de luz branca muito intensa que não me permitia identificar muita coisa.
Meus olhos doíam diante de tanta claridade. Busquei virar-me para ver o outro lado da sala, mas o ferimento recente lembrou-me de sua existência através de forte pontada que voltou a restringir minha capacidade respiratória.
Não tenho certeza de quanto tempo permaneci deitado na mesma posição na expectativa de conseguir respirar um pouco melhor. Mantinha-me de olhos fechados, embora não fizesse muita diferença. Meus olhos continuavam a doer pela intensa luminosidade.
Era capaz de ouvir alguns murmúrios próximos a mim. Pareciam gemidos de pessoas agonizantes e sussurros que não conseguia distinguir. Tentei falar, mas o ar que penetrava em pequenas doses em meus pulmões não era suficiente. Meus pulmões pareciam inundados por algum líquido e o pouco ar que respirava não era suficiente para pronunciar mais do que gemidos de dor.
Percebi que a luminosidade da coluna de luz estava se tornando mais intensa, aumentando ainda mais o incômodo nos olhos; os murmúrios e gemidos começaram a ganhar intensidade e frequência maiores até transformar-se em gritos e súplicas de desespero.
A coluna de luz expandia-se em todas as direções e ao atingir-me permitiu que compreendesse o porquê de tanto desespero. Meu corpo parecia estar em chamas, sendo queimado de fora para dentro como se eu tivesse mergulhado em um caldeirão de óleo fervente.
Ondas intercaladas de luz intensa começaram a atingir-me com frequência cada vez maior. Cada nova investida parecia penetra-me com maior intensidade as entranhas. A dor era insuportável e fui levado à inconsciência novamente.
Sonhei com Zenira, a curandeira nórdica que havia apoiado a recuperação de Léa e agora me dizia que fosse firme, que confiasse na luz da vida, nas forças da natureza que haveriam de me curar.
Acordei sobressaltado pela coluna pulsante de luz que novamente iniciava o processo de expansão trazendo todo o ciclo de horrores novamente.
Não tenho ideia de quantos ciclos de luz passaram por meu corpo e nem de quanto tempo se passou até que me sentisse acostumado ao ambiente rude. Meus companheiros de cela pareciam igualmente adaptados à sala de luz; os gritos eram menos intensos e os murmúrios estavam desaparecendo.
Conseguia respirar melhor e a perfuração do pulmão direito não incomodava tanto. Com alguma dificuldade sentei-me para observar à volta. Aventurei abrir os olhos e acabei registrando uma das cenas que até hoje permanecem profundamente marcadas em minha memória.
Estava em um enorme salão circular com piso que parecia feito de uma peça única de granito branco, assim como o teto e as colunas que o suspendiam a cerca de 15 metros do chão. No centro existia uma coluna de luz intensa de 3 metros de diâmetro que surgia de um buraco no teto e parecia crescer lentamente em intensidade luminosa.
Além de mim, várias pessoas se encontravam no salão, igualmente deitadas no chão, todas em estado deplorável, desfiguradas, trajando trapos e com diversas feridas mal cicatrizadas. Gemiam de dor e imploravam clemência.
Vendo aquela cena horrenda senti minha crença na seriedade de Zenira esvair-se. Meu coração ficou nublado de incertezas, minha mente rasgou a estabilidade que havia construído nos últimos momentos de dor intensa ao resgatar o último encontro com minha amada família.
Meu ferimento voltava a latejar e sangrar. Lembrei-me do maldito causador de tudo aquilo por que estava passando.
O terror atravessou mais uma vez minha mente, desta vez, motivado pela possibilidade de ter minhas amadas compartilhando aqueles tormentos comigo.
O sangue ferveu-me. Levantei desesperado e comecei a circular cambaleante por aquela sala à procura de Léa, Lua e Sol. As pessoas que ali estavam, ao perceber-me de pé, suplicavam ajuda. Estendiam seus braços na esperança de serem retiradas daquele ambiente.
O salão era enorme e várias pessoas encontravam-se ali suplicantes, exceto minhas queridas. O coração aliviou-se, mas minhas forças estavam exauridas. Não conseguia dar mais nenhum passo quando a coluna de luz começou a pulsar novamente atingindo-me pelas costas e levando-me novamente ao chão. Tombei ao lado de um jovem forte que, da mesma forma que os demais, sofria o horror daquela sala. Ficamos ali juntos, compartilhando aquele momento de horror olhando um para o outro, solidários, até perdermos a consciência novamente.
Acordei sobressaltado com as lembranças daqueles momentos de dores intensas que me escudaram contra as agruras que me acompanhariam nos anos seguintes. Suava frio, meu coração estava acelerado. Meus pulmões ardiam com a entrada abundante de ar.
– Meu filho – Disse a minha zelosa cuidadora – Você traz muitas dores que o atormentam. Sua alma sofre. Será que posso ajudá-lo?
– Sou uma alma perdida gentil senhora – Respondi-lhe – Minha vida tem sido uma sucessão de realizações desastrosas. Se pudesse voltar á origem de tudo faria muitas coisas de forma diferente, mas o tempo não anda para trás. Sou fruto de minhas próprias escolhas.
– Não me parece uma pessoa tão má. Em seus sonhos pronunciou várias vezes o nome de Salomão e uma enorme preocupação com relação a ele. Seria um querido amigo? – perguntou-me a gentil senhora entre uma rajada e outra de trovões que castigavam a região. Movido pela pergunta, voltei à câmara de granito. Contei-lhe como conheci aquele jovem que havia sido vitima de um acidente de cavalo em uma fuga após brincadeira grosseira e inconsequente com uma jovem matrona em terras distantes em que viu seu irmão mais velho ser alvejado mortalmente por uma flechada.
– Naquele dia – contei-lhe com os olhos cheios de lágrimas – senti-me envolvido por sentimento de enorme compaixão por aquele jovem aleijado que implorava que lhe exterminasse a vida miserável.
– Fui tocado pela lembrança de minha própria linhagem secular de guerreiros, da qual era o último representante e senti que todo homem tem o direito, mesmo aleijado, de significar sua própria vida. A morte só seria digna se ocorresse em combate ou após muitos anos de vida.
– É um nobre sentimento meu filho – Disse com um olhar comovido a veneranda senhora enquanto aplicava-me algumas compressas. – Percebes que não é uma criatura tão vil assim?
– Engana-se – Respondi-lhe – A certeza da necessidade de sobrevivência atingiu-me como um raio. Não poderia deixar de sobreviver, ainda mais após ter sido apunhalado pelas costas por um vassalo de um nobre indigno. O ódio atingiu-me em cheio no exato momento em que a coluna luminosa iniciava um novo ciclo de tormento.
– Levantei-me movido pela promessa de que sobreviveria para esmagar Arturo. Nem que fosse a última coisa a ser feita em minha vida. Joguei Salomão em minhas costas e comecei a andar em direção à saída enquanto éramos atingidos pelas primeiras ondas luminosas.
– Você tem muita força de vontade meu filho – Disse-me a senhora com sorriso de estímulo.
– É verdade – balbuciei sonolento pelos esforços da narrativa enquanto era conduzido a novo período de sono, mas dessa vez de descanso.
