Embora fizessem dois dias que o inverno houvesse acabado e – oficialmente – já fosse primavera, a mãe-natureza (nunca se atendo às convenções humanas) seguia seu próprio ritmo. Ao contrário do que se esperava dos dias primaveris, aquela manhã começou com uma suave neblina e uma temperatura que não das mais frias, mas tornava a ideia de um agasalho muito bem-vinda.
Munida de um casaco de moletom e uma fumegante xícara de café, abri minha caixa de emails e eis que me deparo com uma agradável surpresa: meu amigo de longa data, Guilherme Fraenkel, me escreveu para contar que tinha reunido um bom número dos contos que ele vinha publicando em seu blog e decidido lançar um livro de forma independente.
Não vou mentir dizendo que fui pega completamente de surpresa; já esperava por isso. Sabia que mais dia menos dia meu amigo (que muitas vezes é uma espécie de irmão mais velho) não ficaria limitado ao mundo virtual e passaria a compartilhar de maneira um pouco mais ampla.
Realizar um sonho – independente do tamanho dele – está muito além da palavra “maravilhoso”; todavia, ver um amigo realizando o sonho dele é algo que palavras são muito pobres para conseguir explicar. Só quem experimentou esse sentimento conseguirá entender o que esse livro significa para mim.
Só que naquele e-mail, junto com a boa notícia também vinha uma honra, a qual não sei se realmente estou a altura de recebê-la: escrever o prefácio de “Vontade de escrever”.
E cá entre nós, como é difícil escrever o prefácio para o livro de um amigo! Algumas semanas já se passaram desde que recebi o e-mail do Guilherme (os dias agora estão com cara de primavera) e por mais que me esforçasse para escrever algo à altura, sempre tinha a impressão que as linhas estavam muito aquém de fazer jus ao conjunto da obra.
O que posso dizer, caro leitor, é que os contos que você lerá ao longo desse livro foram colocados no papel movidos pela pura e simples vontade de escrever; uma vontade que acredito que muitos entendem como nasce. De repente, quando menos se espera, uma história – seja ela grande ou pequena – surge em nossa mente; pouco a pouco, como se tivesse vida própria, a história vai ganhando forma e, com nossa ajuda, sendo moldada, lapidada até estar concluída.
Infelizmente, poucos são aqueles que se preocupam em perpetuar aquela pequena história, poesia ou reflexão e, assim como a ideia surgiu, ela desaparece, adormecendo em algum lugar obscuro do cérebro para, muito raramente, sair de lá outra vez. E isso é uma pena! Fico pensando no número incalculável de boas histórias que se perdem a cada dia por que seus donos não se permitem parar um pouquinho para escrevê-las.
Felizmente, Guilherme faz parte da minoria que se permite não só criar suas histórias em sua imaginação, como se deixa envolver pela vontade de escrever e trazê-las para o mundo físico, podendo, assim, compartilhá-las com quem quiser lê-las.
Essa é outra motivação que deu origem a esse livro: a vontade de compartilhar. Sim, todo o verdadeiro artista quer antes de tudo – antes mesmo da fama e do dinheiro – ser lido, ouvido, assistido… Enfim, quer dividir com o mundo um pouquinho do que sabe fazer, seja isso escrever, cantar, desenhar… O que importa é compartilhar a obra com os outros, nada mais do que isso.
E movido pela vontade de escrever e de compartilhar histórias, esse livro nasceu. Acredito que para a esmagadora maioria, à primeira vista, esses contos nada mais são do que simples contos bem escritos, consequentemente, agradáveis de serem lidos. No entanto, aposto que à medida que for lendo-os, fará pequenas pausas para refletir sobre os pontos que cada uma dessas histórias aborda.
Como toda boa história, cada uma das que estão presentes nessa obra leva o leitor a pensar, refletir sobre assuntos que, muitas vezes, passam despercebidas por nossos olhos devido a correria do dia-dia.
Apontar um favorito? Eis aí uma missão extremamente difícil! Não consigo dizer de qual gosto mais, já que cada um é tão distinto e especial que fica difícil dizer qual é o melhor. Posso dizer que me sinto mais intimamente ligada a “O começo” e “Rede viva”, pois sei que eles são pontos de partida de outros dois livros que meu amigo já está escrevendo e cujo roteiro, tanto já sei o desenrolar das histórias como anseio vê-las como livro.
No entanto, como não me encantar com a lição encontrada em “Fatalidades” ou “Tragédias de Guerra”? Ou ser envolvida pela sutileza de “A folha que queria mudar o mundo” e “Um sonho no sertão”? São contos curtos, mas profundos e marcantes.
Dizem que quando se atira uma pedra em um lago, depois que as ondulações cessam, e as águas voltam à sua calmaria, ainda sim o lago não é mais o mesmo: há um elemento novo nele, tornando-o diferente do que era antes – mesmo que só um pouquinho.
Esse livro é uma nova e preciosa pedra que acolho em meu lago interior. Por fora, continuo a mesma de sempre, mas em minha alma há algo novo.
Espero sinceramente que você acolha essa pedrinha em formato de livro em seu interior e sinta a mudança que está vinculada a ela.
Uma ótima leitura!
Rafaela Rocha
